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O NEOCOLONIALISMO APLICADO AOS MAIS FRACOS EUROPEUS

O NEOCOLONIALISMO APLICADO AOS MAIS FRACOS EUROPEUS

A PRIVATIZAÇÃO NA ALEMANHA ORIENTAL É EXEMPLO PARA GRÉCIA E BRASIL

São Paulo, 19/10/2015 (Revisada em 22-06-2017)

Referências: Privatização, Terceirização, Desnacionalização, Internacionalização do Capital Nacional, Colonialismo e Neocolonialismo, O Feudalismo Reinventado pelo Cartel de Magnatas Blindados em Paraísos Fiscais é o Novo Capitalismo Bandido dos Barões Ladrões, Privatização dos Lucros e Socialização dos Prejuízos.

Por Américo G Parada Fº - Contador Coordenador do COSIFE

A PRIVATIZAÇÃO NA ALEMANHA ORIENTAL É EXEMPLO PARA GRÉCIA E BRASIL

O balanço da maior privatização da história [feita na Alemanha Oriental depois da queda do Muro de Berlim] mostra que [tal modelo neoliberal] não é a via a ser seguida pela Grécia nem por nenhum outro país do mundo.

O Feudalismo Reinventado pelo Cartel de Magnatas Blindados em Paraísos Fiscais é o Novo Capitalismo Bandido dos Barões Ladrões, também chamado de Nova Ordem Mundial Neoliberal.

Artigo de Herwig Lerouge publicado em solidaire.org (Revista Solidariedade da Bélgica escrita em Francês e Holandês), republicado por Resistir.Info com tradução por Margarida Ferreira para o português de Portugal. Também publicado no Brasil por Carta Maior em 18/10/2015 e por Esquerda.Net de Portugal. Aqui com edição do texto original, anotações, adaptações ao português brasileiro, complementações com ou sem endereçamentos e comentários em azul por Américo G Parada Fº - Contador - Coordenador do COSIFE.

O NEOCOLONIALISMO APLICADO AOS MAIS FRACOS EUROPEUS

Desde o ultimato do Banco Central Europeu à Grécia de 13 de julho (aconteceu o terceiro acordo financeiro entre o governo grego e a UE), está tudo à venda na Grécia: ilhas, praias, hotéis, castelos, portos, aeroportos, autoestradas, caminho-de-ferro [ferrovias], instalações olímpicas…

A venda de patrimônio público grego até ao fim de 2017 deverá render 50 bilhões de euros, dos quais 50% devem servir para recapitalizar os bancos falidos pela Crise Mundial provocada por eles mesmos por meio do antigamente chamado de capitalismo bandido dos barões ladrões, que agora é chamado de financeirização da economia mundial em paraísos fiscais ou Nova Ordem Mundial Neoliberal.

Veja explicações complementares em Petrobras: O Maior Patrimônio do Povo Brasileiro Está em Perigo.

Outra parte [dos mencionados 50%] será utilizada para pagar aos credores (alemães, franceses…e aos demais magnatas europeus) e o restante será consagrado a investimentos ainda não determinados ...

Um agente imobiliário suíço de alto coturno já vendeu a Johny Depp a ilha de Stroggilo, perto de Samos, por 4,2 milhões de euros, negociou o ilhéu Gaia nas Ilhas Jônicas para Angelina Jolie e Brad Pitt e comprou por 15 milhões a Ilha de Aghios Thomas, perto da Ilha Egina, com o multimilionário Warren Buffet. E a lista dos seus clientes continua a aumentar.

O governo grego teve que vender os 14 aeroportos lucrativos e manter os outros 30 deficitários, subsidiando-os.

O presidente do município de Corfu não quer acreditar:

"A nossa ilha de 120 mil habitantes recebe mais de um milhão de turistas por ano. O nosso aeroporto é extremamente rentável. Porquê entregá-lo em mãos estrangeiras?"

E quem vai assumir o controle desses aeroportos?

Vai assumiu a sociedade Fraport AG, uma empresa pública alemã, em que a maior parte das ações pertence à cidade de Frankfurt e ao estado de Hesse. Do mesmo modo como aconteceu na Alemanha Oriental (comunista), o que era propriedade do estado grego vai passar a ser propriedade do estado alemão. E os lucros realizados nesses 14 aeroportos vão financiar os serviços públicos alemães.

NOTA DO COSIFE:

Qualquer semelhança com as privatizações feitas no Brasil desde o Governo Collor até o Governo FHC é mera coincidência, porque o nosso País vem sofrendo com internacionalização de suas riquezas naturais desde o seu descobrimento em 1500. Entre os bens patrimoniais que ainda pertenciam ao Brasil (ao Povo brasileiro) estavam as empresas estatais que foram as molas mestras do nosso desenvolvimento durante os Governos Militares iniciados em 1964.

Mesmo depois da nossa independência em 1822, a nossa Elite Vira-Lata, representada pelos atuais oposicionistas ao Governo Federal, fez questão de manter o Brasil sob o domínio econômico dos ingleses. Em vez de trabalhar para o progresso do Brasil, a nossa Elite Oligárquica preferiu viver com pompa e circunstância em defesa dos interesses neocolonialistas da nobreza europeia e dos norte-americanos e japoneses.

A partir do Governo Dutra, foi tentada a transferência da batuta de orquestrador do nosso neocolonialismo para os ianques. Mas, como Getúlio Vargas foi novamente eleito, ressurgiu o movimento nacionalista com o lema "O Petróleo É Nosso".

A partir de Juscelino Kubitschek as multinacionais aportaram no Brasil com o seu neocolonialismo privado (não mais comandado diretamente por governantes europeus, norte-americanos ou japoneses). Naquela época a maioria das grandes empresas europeias era indiretamente estatal, assim como as japonesas. Isto é, as empresas tinham participação acionária minoritária ou majoritária do governo de seus países de origem.

As empresas norte-americanas foram privatizadas depois da morte de Franklin Roosevelt. As empresas estatais europeias começaram a ser privatizadas na segunda metade da década de 1980.

As grandes empresas europeias e dos demais países citados passaram a gerar lucros no Brasil com a finalidade de sustentar o muito elevado IDH de suas respectivas populações, assim forçando o empobrecimento do trabalhador brasileiro, até que chagarem à miséria que fomentou a criminalidade atualmente existente.

A SOBERANIA DA GRÉCIA FICARÁ EXTREMAMENTE REDUZIDA

Já em 2011, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, na época presidente do Eurogrupo, comparava a situação da Grécia à da Alemanha de Leste [comunista], depois da reunificação.

Numa revista alemã Juncker explicava que "a soberania da Grécia ficará extremamente reduzida" dada "a vaga de privatizações em perspectiva", num montante de 50 bilhões de euros. Seria necessário, dizia ele, uma agência de privatizações, pilotada por especialistas europeus e fundada "segundo o modelo da Treuhand alemã", organização que tinha vendido 14 mil firmas da Alemanha de Leste [comunista], entre 1990 e 1994. Afirmava estar convencido de que as medidas tomadas "resolveriam a questão grega".

O fundo de privatização de que Juncker falava e que a Alemanha atualmente exige, chama-se TAIPED (Fundo de Desenvolvimento do Patrimônio da República Helênica). Com efeito, esse tipo de neocolonialismo revive os métodos utilizados na ocasião da reunificação alemã.

Em 1990, há exatamente 25 anos [completados em 2015], mal tinha passado um ano da queda do muro, o governo cristão-democrata de Kohl instituiu uma sociedade [empresa] para organizar a privatização da economia da ex-RDA, a República Democrática Alemã [comunista].

Tal como o fundo de privatização grego [de 2015], [aquele fundo de privatização alemão] tratava-se de um organismo que tinha as mãos livres para vender rapidamente os haveres da Alemanha de Leste [comunista], fazendo assim entrar milhões nos cofres do estado alemão [reunificado].

NOTA DO COSIFE:

O interessante é que Jean-Claude Juncker foi Primeiro-Ministro do grão-ducado e paraíso fiscal denominado como Luxemburgo.

Sobre a atuação do Grão-Duque de Luxemburgo como agente da Sonegação Fiscal praticada por grandes empresas do mundo inteiro, inclusive do Brasil, veja o texto intitulado Ativo Fiscal Intangível e a Contribuição Não Mensurável.

A contribuição não mensurável (não declarada) a que o texto se refere é uma espécie Propina (receita não contabilizada no País) paga ao Grão-Duque na condição de Senhor Feudal de Luxemburgo.

No Brasil, a Lei 8.018/1990 sancionada no Governo Collor criou o Certificado de Privatização, que representava uma espécie cota de "Fundo de Privatização" que era mantido pelo Governo Federal. Em tese, as cotas desse fundo de investimentos não seriam negociáveis. Mas, os certificados de cotas são negociáveis.

Somente as Cotas dos antigos "Fundos de Investimentos Ao Portador", criados no Governo Sarney, eram negociáveis. Porém, esses Fundos foram extintos no Governo Collor porque incentivavam a sonegação fiscal pelos mais ricos.

Depois dessa extinção dos Fundos ao Portador, aqueles mais ricos sonegadores de tributos passaram a constituir empresas fantasmas em paraísos fiscais, apontadas na CPI do Banestado, que investigou as fraudes cambiais e a evasão fiscal e de divisas ocorridas com a anuência dos dirigentes do Banco Central na década de 1990.

As fraudes ocorridas na Petrobras desde que estava para ser privatizada durante o Governo FHC, apontadas na Operação Lava-Jato em 2015, também têm como principais artífices alguns dos acusados pela CPI Banestado.

Neste COSIFE também está o texto publicado em 17/06/2004, intitulado Perdemos Nossa Soberania (Interferências Estrangeiras Impedindo o Nosso Desenvolvimento). Nele é narrado algo parecido com o que será feito contra a Grécia e contra outros países europeus propositalmente endividados.

Idêntica forma de dependência econômico-financeira está sendo novamente aplicada ao Brasil pelos membros do COPOM - Comitê de Política Monetária. Para endividar um País basta elevar a taxa de juros acima da sua capacidade de pagar a longo prazo. As elevadíssimas taxas de juros fixadas pelo COPOM já foram apontadas como "especulativas" por Agência de Classificação de Riscos.

Torna-se importante alertar aos "esquecidinhos" de sempre que o Ministério Guido Mantega soube perfeitamente elevar e manter o Brasil como 6ª potência mundial em PIB e como 5º país maior possuidor de Reservas Monetária. Justamente por sua inegável competência na manutenção do Brasil quase no topo do cenário mundial, Mantega, embora não fosse muito feliz na frente de um microfone e das câmaras televisivas, foi criminosamente criticado pelos conhecidos Inimigos do Brasil, os quais fazem oposição ao governo federal desde 2003 e querem aplicar um novo Golpe de Estado como também queria Carlos Lacerda desde 1950 até 1964.

A prova da incontestável competência de Mantega, está neste Brasil cambaleante que se apresenta depois de sua saída. E tem gente desmemoriada que prefere o Meirelles no lugar do Levy.

1990: A GRANDE EXPROPRIAÇÃO DA POPULAÇÃO DA RDA [ALEMANHA COMUNISTA]

A 9 de novembro de 1989, a queda do muro de Berlim abre o caminho à reunificação alemã. Coloca-se então a questão:

Como adaptar o conjunto do sistema produtivo da República Democrática Alemã (RDA) e integrá-lo no conjunto da economia alemã [reunificada]?

A RDA [comunista] tinha uma indústria e uma agricultura desenvolvidas e bastante completas. O problema central era a falta de capitais para modernizar um aparelho produtivo envelhecido [depreciado ou amortizado pelo seu tempo de uso]. Mas as empresas, a propriedade fundiária e o conjunto das atividades econômicas pertenciam ao Estado, ou seja, aos cidadãos.

NOTA DO COSIFE:

O fato de um País ter bens de produção envelhecidos não o impede de produzir e ter lucro, pelo contrário.

Os equipamentos totalmente depreciados, em tese geram mais lucros que os novos, porque estes têm altos custos com depreciações e os antigos não têm estes custos.

O real problema é diferente e está explicado no texto denominado Integralização de Capital Estrangeiro com Sucata Supervalorizada, como sempre foi feito pela indústria automobilística multinacional. Como se trata de bem usado, ele pode ser depreciado em dobro, ou seja, na metade do tempo de um bem de produção novo.

Os militantes das ONGs na base da revolta de 1989, organizados na "Mesa Redonda central", apresentaram ao primeiro-ministro alemão Hans Modrow uma "proposta para formar rapidamente uma agência fiduciária (Treuhandgesellschaft, em alemão) encarregada de salvaguardar os direitos dos cidadãos da RDA quanto à propriedade pública da RDA".

[Os militantes comunistas] consideravam que a transferência desses bens para o Estado seria uma "espoliação dos cidadãos". No Brasil o mesmo foi feito pelos mentores das privatizações durante o Governo FHC.

Os militantes daquelas ONGs receavam que, no caso duma "anexação da RDA à República Federal da Alemanha, a propriedade do povo perder-se-ia", se tudo isso passasse a pertencer ao Estado alemão.

A Treuhand devia emitir ações imediatamente e distribuí-las pelos cidadãos da RDA sob a forma de participações no capital da RDA. Na verdade, uma espécie de "capitalismo popular".

O governo Modrow [comunista], uma coligação de todos os partidos existentes na RDA, criou essa Treuhandanstalt, no dia 1 de março de 1990.

NOTA DO COSIFE:

No Brasil o Povo talvez tenha sido o maior proprietário de Ações das Estatais. As ações para capitalização das empresas estatais eram vendidas para os consumidores de seus serviços.

Porém, aqueles pequenos acionistas foram enganados pelos profissionais do mercados de capitais, os quais diziam que aquelas ações não tinham valor algum (Só o aparelho telefônico, por exemplo, tinha valor comercial).

Depois que ações das empresas estatais, entre outros papéis chamados de "Títulos Podres", foram comprados pelos PRIVATAS (piratas ou corsários das Privatizações), estes assumiram a administração das empresas estatais, agora agindo como se elas fossem suas.

Depois disto, os aparelhos telefônicos, citados como exemplo, deixaram de ter valor comercial. Ou seja, o Povo ficou com o nada, ficou com coisa alguma. Sobre esse tema, pergunte aos seus pais ou para seus avós.

As leis relativas à constituição das Agências Nacionais Reguladoras as transformaram numa forma de Governo Paralelo, não sujeito às determinações da Presidência da República (Poder Executivo), nem dos Poderes Legislativo e Judiciário.

CAPITALISMO POPULAR

Mas, uns dias depois [de 01/03/1990], a CDU da Alemanha ocidental [capitalista extremista] ganha as eleições. A 17 de junho de 1990, a nova Câmara popular da RDA [comunista] aprova a Treuhandgesetz (lei sobre a privatização e reorganização do patrimônio do Estado). Esta lei estipula que "o patrimônio do Estado deve ser privatizado". Esta disposição fora imposta pelo governo da RFA - República Federal Alemã [a capitalista].

O chanceler Kohl [capitalista] tinha prometido aos cidadãos da RDA [comunista], durante a campanha eleitoral, que ninguém perderia com isso. Mas, depois de eleito praticou o inverso. Segundo ele [justificou], a RDA estava na falência, a sua economia completamente desgastada. Graças ao trabalho da Treuhand, ele faria da Alemanha de Leste [comunista] uma "paisagem florescente" em poucos anos.

Na prática aconteceu o inverso, conforme demonstram os números e as estatísticas apresentadas mais adiante, depois da apresentação do mapa com o Poder Aquisitivo (em 2014) da população da Alemanha unificada.

Esta lei imperialista de Kohl pôs fim aos sonhos de "capitalismo popular" dos movimentos de cidadãos comunistas que tinham contribuído para a queda do muro de Berlim. Mas os novos dirigentes políticos e um exército de professores da Alemanha [capitalista] apareceram na televisão a afirmar que a privatização da RDA iria salvar os cidadãos da catástrofe.

Porém, a catástrofe aconteceu e arruinou a população do lado comunista alemão. Ou seja, a Elite Vira-Lata alemã (capitalista), tal como sempre faz qualquer outro tipo de estelionatário, conseguiu enganar os mais pobres comunistas.

Com efeito, diziam eles [os capitalistas], a economia da RDA não valia nada, só havia dívidas. Deviam mostrar-se agradecidos por não lhes darem títulos de propriedade. Pelo menos, não seriam responsabilizados pelas dívidas. Como já não eram proprietários, já não era necessário associar os cidadãos às operações de privatização.

Qualquer semelhança com os "Títulos Pobres" das estatais brasileiras é mera coincidência, ou melhor, é mera sem-vergonhice dos mentores das Privatizações no Brasil.

Esta decisão correspondia evidentemente aos desejos do patronato da RDA [escravocrata] que exigia uma privatização maciça e rápida de modo que os comunistas não tivessem tempo para reagir.

Um dia antes da reunificação alemã, a 2 de outubro de 1990, o escritor Günter Grass faz um discurso sobre "Um negócio de ouro, chamado RDA". O patronato [escravocrata] tinha uma opinião totalmente diferente dos cidadãos sobre o valor do aparelho produtivo da RDA.

Uma equipe de prospecção [análise e avaliação ou mensuração de ativos] do Banco Schröder, Münchmeyer, Hengst & Co., estava totalmente de acordo com ele [o escritor Günter Grass].

Os especialistas assim escreveram no seu relatório comentado no Frankfurter Allgemeine Zeitung de 7 de fevereiro de 1990:

"Os participantes nesta viagem de prospecção estão entusiasmados. Três quartos dos participantes tinham a intenção firme de comprar empresas na RDA. Pensavam que, em dez anos, no máximo, os negócios seriam muito rentáveis".

Se as empresas da Alemanha Comunista não tivessem valor, pergunta-se:

Quem teria interesse em comprá-las?

Isto significa que, tal como no Brasil, aconteceu um crime de estelionato contra o Povo. Ou seja, com  a avaliação das nossas empresas estatais por valor tão baixo ou nulo, o Povo foi vítima de um "conto do vigário" aplicado pelos nossos gestores das Políticas Econômica e Monetária.

A CORRIDA DO OURO

A Treuhandanstalt foi pois transformada, pela lei de 17 de junho de 1990, numa agência de venda dos bens da ex-RDA para particulares, tidos como PRIVATAS.

Rohwedder, presidente do conselho de administração da Hoesch AG e membro de inúmeros outros conselhos de administração nas maiores empresas alemães, é nomeado como primeiro presidente [da Treuhandanstalt, Agência de Privatização ou Agência de Desnacionalização].

André Leysen, antigo presidente da Federação das Empresas da Bélgica (FEB) foi o único estrangeiro a fazer parte da direção da Treuhand.

Quando Rohwedder [da Hoesch AG] foi assassinado, sucedeu-lhe Birgit Breuel, filha de um banqueiro e várias vezes ministra regional das finanças. Assim, assistiu-se a uma verdadeira corrida ao ouro.

Indústrias, bancos, lobistas precipitam-se para o leste, na ausência de [não respeitando] qualquer quadro [previsão ou disposição] legal. O primeiro a chegar é o primeiro a ser servido. Isto passa-se tão depressa que, numa visita à Bélgica, Birgit Breuel podia anunciar, no fim de 1992, que em breve "o papel do seu organismo se limitaria a manter o respeito pelos compromissos assumidos pelos compradores ocidentais, em termos de investimentos e de manutenção do emprego".

Estava previsto que a Treuhand vendesse o patrimônio público com lucro, mas fechou as contas com um défice [prejuízo] enorme de 270 bilhões de marcos (equivalente a 118,4 bilhões de euros).

Um pouco antes do fim da Treuhand, em finais de 1994, é chegada a hora do balanço [final]:

"Quando começamos, tínhamos que fazer um diagnóstico de cerca de 8.500 empresas. Hoje, depois de reestruturações importantes, a nossa carteira subiu para umas 13 mil empresas. Até hoje, privatizamos 12.300 empresas e partes de empresas; fechamos 2.500. Há mil em vias de privatização. Falta, pois, privatizar 800 empresas".

Tal como aconteceu no Brasil, todos os maiores pilantras daquele País puderam comprar as empresas estatais da Alemanha Comunista. Nos Leilões de Privatização, tanto lá como cá, o Povo, o verdadeiro dono das empresas privatizadas, não podia (novamente) comprar as ações que (por direito e honra) eram de sua propriedade.

PRIVATIZAÇÃO, TERCEIRIZAÇÃO, DESNACIONALIZAÇÃO = PREVARICAÇÃO

A privatização era a prioridade absoluta. Nunca a Treuhand [a Agência de Privatização] encarou a possibilidade de sanear empresas da Alemanha Comunista para torná-las empresas públicas eficazes.

A Treuhand Anstalt liquidou 30% das empresas [provavelmente as que eram concorrentes das ocidentais] e ofereceu as restantes por um marco simbólico a sociedades e a especuladores da Alemanha ocidental.

No Brasil, várias das empresas privatizadas foram fechadas por seus compradores porque eram concorrentes de estrangeiras por eles representadas no Brasil. Ou seja, o que era produzido no Brasil, passou a ser produzido no exterior. Os mentores das privatizações geraram desemprego no Brasil e criaram novos empregos no exterior.

Na agricultura, a grande expropriação teve lugar entre 1990 e 1992. Atualmente, os camponeses estão reduzidos a comprar ou alugar as suas terras. O mesmo vem acontecendo no Brasil gerando o chamado de êxodo rural.

87% das empresas privatizadas foram vendidas a grupos da Alemanha ocidental. No melhor dos casos, tornaram-se filiais de empresas da Alemanha ocidental. Em muitos outros casos, os alemães ocidentais compraram-nas a baixo preço para as fechar e eliminar assim a concorrência ou para especular com os terrenos ou os edifícios [especulação imobiliária tal como aquela que provocou a falência econômica dos Estados Unidos em 2008].

Qualquer semelhança com a mesma vigarice feita no Brasil, não é mera coincidência. É mera sem-vergonhice.

As grandes siderurgias de Brandenburgo estão totalmente destruídas. A fábrica de tratores da mesma cidade e a indústria de fiação de lã já não existem. Os 5.000 trabalhadores da Pentacon Dresden já não produzem máquinas fotográficas. Já não se constroem caminhões no território da antiga Alemanha Comunista. A Krupp Stahl comprou, com subsídios do Estado, a laminagem de Oranienburgo e paralisou-a em 1993. A fábrica berlinense de instalações de aquecimento, que empregava 1.850 trabalhadores, e era grande exportadora de centrais elétricas, foi à falência em 1993.

Qualquer semelhança com a mesma vigarice feita no Brasil, não é mera coincidência. É mera sem-vergonhice.

Mesmo empresas modernas, como a mina de potássio de Bischofferode, estão fechadas e os trabalhadores despedidos porque a BASF queria eliminar a concorrência da Alemanha do Leste [comunista]. Com frequência, só pediram um marco simbólico por grandes empresas e, além disso, ainda reembolsaram os novos chefes das empresas pelos alegados custos de saneamento de locais contaminados e deram-lhes ajudas para investimentos e compensações pelas perdas sofridas. Inúmeros compradores foram dispensados dos controles de rotina normais [legalmente estabelecidos] em questões de comércio e de pessoal. [Assim, o patronato eximia-se do pagamento de indenizações trabalhistas, entre outras]

A agricultura assegurava o abastecimento de base de todos os habitantes da RDA [Alemanha Comunista]. Depois da união monetária (a 1 de junho de 1990, o marco alemão tornou-se na moeda oficial), as cadeias de grande distribuição da Alemanha ocidental [capitalista] eliminaram do mercado os produtos agrícolas da Alemanha oriental [comunista]. Os cultivadores passaram a receber apenas metade ou mesmo um terço do antigo preço dos seus produtos.

Muitos agricultores perderam o seu trabalho ou desistiram: dos 850 mil agricultores da RDA, só restam 170 mil. A superfície cultivável diminuiu em 20%, o gado diminuiu em 50% para os bovinos, em 65% para os suínos e em 70% para os ovinos.

A MAIOR DESTRUIÇÃO DE RIQUEZAS SOCIAIS

Os bancos ocidentais puderam comprar os bancos públicos da RDA pela quantia ridícula de 412 milhões de euros. Em contrapartida, ficaram com os títulos de dívida das empresas, do imobiliário (10 mil milhões) e das cooperativas agrícolas (4 mil milhões). O Deutsche Bank arrebatou dois terços das filiais do Banco Nacional da RDA.

Resultado: a maior destruição de riquezas sociais jamais vista em tempo de paz.

A 19 de outubro de 1990, Rohwedder, o presidente da Treuhand, calculava o valor dos bens a privatizar em 300 bilhões de euros. Quando a Treuhand fechou a porta em 1994, apresentava um balanço negativo de 128 mil milhões de euros. Foram destruídos mais de 400 mil milhões de euros.

No final de 1991, a indústria do leste [comunista, totalmente desmantelada pelos PRIVATAS] só produzia um terço da sua produção anterior a 1989.

Qualquer semelhança com a mesma vigarice feita no Brasil, não é mera coincidência. É mera sem-vergonhice. Quando FHC assumiu o governo, o Brasil era a 8ª potência mundial em PIB - Produto Interno Bruto. Quando FHC deixou o Governo para Lula, no final de 2002, o Brasil havia regredido para a 13ª posição em PIB.

As exportações entraram em queda e ficaram reduzidas a metade em dois anos, sobretudo para os países da Europa de leste e para a URSS. Mas não se perderam para toda a gente. As exportações das empresas da Alemanha ocidental para essas regiões quase duplicaram.

PODER DE COMPRA OU PODER AQUISITIVO NA ALEMANHA EM 2014

No mapa acima, relativo ao poder aquisitivo dos alemãs em 2014, as cores mais escuras representam as cidades ou regiões com poder aquisitivo mais elevado e as cores claras as com poder aquisitivo mais baixo. Nele é possível observar a clara diferença entre o padrão de vida do Leste (Alemanha Oriental - comunista) e o padrão de vida do Oeste (Alemanha Ocidental - capitalista).

Os antigos comunistas atualmente são os mais pobres alemãs. Talvez por mero preconceito ou discriminação social, porque desde 1989 a 2014, decorridos 25 anos, seria tempo suficiente para colocar os alemãs orientais com praticamente o mesmo padrão de vida dos ocidentais.

Porém, no mapa observa-se também que as populações com maior poder aquisitivo estão mais próximas das fronteiras com a França, Suíça e Áustria, obviamente naquele miolo da Europa estão as populações mais afortunadas.

Entretanto, aconteceu o pior. O padrão de vida dos orientais diminuiu de lá para cá, conforme já foi explicado acima. Porém, vejamos a seguir as estatísticas da desgraça dos alemãs comunistas, que também será fatalmente observada na Grécia.

No Brasil não aconteceu tal desgraça porque de fato vivemos num país super-rico que tem um povo super-pobre. Não é à-toa que o Brasil vem sustentando a Europa desde 1500.

UM DESERTO SOCIAL NA ANTIGA ALEMANHA COMUNISTA

Em dois anos, de 1989 a 1991, o Produto Interno Bruto (PIB) caiu em 44% e a produção industrial em 65%. O número de pessoas ativas caiu de 8,9 milhões para 6,8 milhões no mesmo período.

Em média, a taxa de crescimento foi de 1% entre 1990 e 2004. Em 1959, o PIB por habitante no leste era metade do da Alemanha ocidental. Em 1991, passou para um terço Em 2009, 20 anos depois, continua em dois terços.

Muitas vezes, em situações de monopólio, os novos proprietários despedem maciçamente e fazem chantagem com o Estado, exigindo subsídios para investir.

Um diretor da Treuhand explicaria mais tarde que "nenhum grande banco alemão arriscou um marco. Foi tudo garantido pelo Estado, pelo conjunto dos cidadãos". Uma outra nota no seu jornal: "Ninguém se rala, ninguém tem escrúpulos em esvaziar os cofres do Estado, porque é disso que se trata realmente".

Qualquer semelhança com a mesma vigarice feita no Brasil, não é mera coincidência. É mera sem-vergonhice.

É também o Estado que vai financiar a renovação do aparelho produtivo e fechar as empresas menos rentáveis, as que não encontraram comprador.

Qualquer semelhança com a mesma vigarice feita no Brasil, não é mera coincidência. É mera sem-vergonhice.

Havia quatro milhões de alemães assalariados em empresas passadas para o rol da Treuhand em 1990. Quando este organismo fechou em 1994, só restava um milhão e meio de empregos. As empresas privatizadas tinham prometido retomar um milhão e meio.

Mas até Birgit Breuel reconhece em 1994 que, pelo menos, 20% dos investidores, não cumpriram esse compromisso, que havia adquirentes que tinham comprado empresas para se verem livres delas e especular com o imobiliário.

Foi o que fizeram com as ferrovias brasileiras. Venderam trilhos e dormentes para siderúrgicas privadas.

Mesmo que as empresas tivessem retomado esse milhão e meio de trabalhadores, conforme prometido, a Treuhand teria destruído 2,5 milhões de empregos.

Os empregos a tempo inteiro, estáveis, foram substituídos, em grande parte, por empregos a tempo parcial e temporários. Em 2008, a ex-RDA tinha um sexto da população alemã, mas metade dos alemães desempregados, por mero preconceito e discriminação política e social.

Entre 1989 e 2006, emigraram 4,1 milhões de alemães do leste. Sobretudo nas antigas cidades industriais, calcula-se em 1,3 milhões o número de casas não ocupadas. A solução: demolição.

No final das contas, foram os cidadãos que suportaram o peso da reunificação. A falência da Treuhand e da sua ideologia de "terapia de choque" está próxima. A 1 de janeiro de 1995, desaparece deixando uma montanha de dívidas à Alemanha reunificada.

Ainda hoje, subsistem inúmeras disparidades entre a ex-RDA e a Alemanha ocidental (ex-RFA). (Veja no mapa acima)

MANTÊM-SE ALGUMAS CONQUISTAS

A maior parte dos habitantes da ex-RDA só dispunha, em 2012, de um rendimento inferior a 17.800 euros por pessoa. A maior parte dos alemães do ocidente atinge somas que podem ir até aos 23.700 euros, ou mesmo 26.700.

Em 2013, o PIB por habitante (com exceção de Berlim) era 50% superior ao dos alemães orientais. Nos anos 2000, o desemprego baixou globalmente em toda a Alemanha mas as diferenças não foram reduzidas entre alemães ocidentais e orientais. Quando o desemprego passa, entre 2006 e 2014, de 10 para 6% da população ativa no antigo território da RFA, passa de 20 para 12% na ex-RDA.

Em contrapartida, determinadas conquistas sociais da ex-RDA também se mantêm. Os alemães de leste continuam a ter melhores cuidados para os seus filhos. Há zonas em que 63% das crianças (com 2 anos ou menos) frequentam creches ou outras instituições desse tipo, herdadas da ex-RDA. No ocidente, esta taxa cai com frequência abaixo dos 25%.

CORRUPÇÃO E CRIMES

Por um marco simbólico, especuladores de todos os tipos puderam realizar a aquisição de edifícios ou terrenos de empresas bem situadas em Berlim ou noutros locais, que revenderam pouco tempo depois a alto preço. O antigo chefe do departamento jurídico da Treuhand explicava, já em setembro de 1992, que o total dos prejuízos infligidos à Treuhand por vigarices de todo o tipo "podia ser razoavelmente calculado em mais de 4,3 mil milhões de marcos". 5

Foi por isso que a Treuhand, que alegadamente devia autofinanciar-se – as receitas das privatizações deviam permitir amortizar os custos da reestruturação – acabou com um défice de 140 bilhões de euros.

A vontade de atribuir uma parte dos custos da anexação aos regimes sociais (segurança social, reformas, desemprego) conduziu rapidamente a uma crise dessas tesourarias e a medidas de restrição.

Um parágrafo da lei atribui impunidade aos dirigentes da Treuhand na gestão dos seus negócios.

O ministro das Finanças da época, Theo Waigel, atribuiu-lhes "a possibilidade de não respeitar a prudência habitual da gestão de negócios".

Era preciso agir depressa. Isso levou a que a Treuhand agisse num clima de escândalos, de corrupção, de chantagem, quase sempre impunemente. As transações da Treuhand alimentaram "sacos azuis" do partido CDU de Kohl. Houve o dossier Elf-Leuna.

Os dirigentes da Siemens, da Höechst, da Daimler et de outros Thyssen, representados na qualidade de "especialistas" junto da direção do organismo, puderam repartir a muito bom preço os melhores bocados do bolo da Alemanha de leste.

A RDA ESTAVA EM FALÊNCIA EM 1989?

O fecho de empresas depois da reunificação é considerado no ocidente como a consequência da má gestão da RDA. Ainda hoje, para muitos alemães ocidentais, a ex-RDA é sinônimo de ditadura, de falência econômica. Tratar-se-ia de um país que só sobreviveu graças às transferências financeiras do ocidente, à custa dos contribuintes da Alemanha ocidental.

É verdade que havia muita coisa arcaica que devia ser modernizada e, em comparação com a Alemanha ocidental, a produtividade era fraca, mas não se pode falar de falência.

Segundo o relatório da Bundesbank, de agosto de 1999, a RDA dispunha em 1989 de reservas monetárias de 29 bilhões de marcos alemães. Este montante cobria 59% da dívida externa. A dívida por habitante era de cerca de 7.000 marcos alemães. Isso não representava sequer 50% da dívida da Alemanha ocidental, que era de 15 mil marcos alemães por habitante. Com um produto interno bruto de mais de 16 mil marcos alemães por habitante, a RDA situava-se em 1988 no 9º lugar dos países da comunidade europeia, a seguir à Inglaterra, mas antes da Espanha. Em matéria de exportação (para 90% dos produtos da indústria) a RDA estava em 16.º lugar na Europa.

Detlev Rohwedder, o primeiro presidente da Treuhand, avaliou o capital da RDA em 600 bilhões de marcos alemães.

Foi a união monetária, demasiado rápida, que deu o golpe de misericórdia à economia da ex-RDA. De um dia para o outro, decretou-se que um marco do leste valia um marco do ocidente, sem qualquer transição. A taxa em vigor era de 4,44 para 1. O presidente da época do Banco Central alemão disse: "Foi um remédio de cavalo, nenhuma economia teria sobrevivido".

Num só dia, as empresas de leste perderam os mercados da Alemanha ocidental e da Europa de leste. Até aí, o comércio com os países de leste era regularizado em rublos. Mas, com o marco alemão, os produtos da RDA tornaram-se tão caros que deixaram de ser competitivos. 70% das empresas foram à falência, o que provocou a supressão de 2 a 2,5 milhões de postos de trabalho, o equivalente a uma taxa de desemprego de 30%.

Disseram na imprensa que foram injetados nos novos alemães um milhão de milhões [1 trilhão] de marcos alemães, desde 1990. Na realidade, tratou-se de 400 bilhões.

E, tal como com a Grécia, este dinheiro voltou a ser encaixado pelos acionistas das grandes multinacionais do ocidente.

A anexação da RDA e dos seus mercados anteriores a 1989 abriu-lhes um mercado de mais de 16 milhões de novos consumidores, unicamente na Alemanha de Leste.

Os bancos apoderaram-se do mercado, os Lidl e outros Aldi apoderaram-se do abastecimento de bens de consumo. A concorrência foi adquirida e eliminada pelo encerramento de empresas.

A construção de estradas e de edifícios, a reabilitação de cidades inteiras e a criação de novas indústrias, segundo o primeiro-ministro de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, Harald Ringstorff, "beneficiaram em 80% as empresas da Alemanha ocidental".

A economia da Alemanha ocidental, em especial entre 1990 e 1992, beneficiou-se enormemente com a reunificação. Registrou uma taxa de crescimento de 4% e uma progressão do número de empregos de quase 1,8 milhão.

Como de costume, foram os trabalhadores do leste e do ocidente que pagaram e os acionistas que encaixaram. Com a ajuda dos seus amigos no governo, evidentemente.

CONCLUSÃO

É sempre assim: os PRIVATAS roubam e o Povo é quem paga a conta. Por meio dos tributos cobrados, embutidos nos preços das mercadorias e dos serviços adquiridos, o Povo é obrigado a ressarcir os prejuízos causados pelos gestores de nossa Política Econômica e Monetária.

Trata-se da Privatização dos Lucros e da Socialização dos Prejuízos.