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ISLÂNDIA: O POVO EXIGIU A FALÊNCIA DOS BANCOS E SE DEU BEM

ISLÂNDIA: O POVO EXIGIU A FALÊNCIA DOS BANCOS E SE DEU BEM

O GOVERNO OUVIU A VOZ DO POVO: A LIÇÃO DEMOCRÁTICA DA ISLÂNDIA

São Paulo, 30/08/2015 (Revisada em 22-06-2017)

Referências: Democracia Versus Autoritarismo, Referendum e Plebiscito, Máxima Experiência Versus Teoria Caduca, a Teoria na Prática é Outra, a Lógica deve Prevalecer sobre a Teoria não Comprovada na Prática.

ISLÂNDIA NÃO SALVOU OS BANQUEIROS E SE DEU BEM

Por que não seguir seu exemplo?

A Islândia enfrentou sua crise econômica de maneira soberana: juntou governo e habitantes, dispensando as interferências do sistema bancário internacional.

Texto em letras pretas por José Carlos Peliano - colaborador da Carta Maior. Publicado em 17/06/2015. Com anotações, comentários e informações complementares em letras azuis por Américo G Parada Fº - Contador - Coordenador do COSIFE

O POVO CONTRA O PAGAMENTO DA DÍVIDA ASSUMIDA PELOS BANCOS

A Islândia ficou por baixo aos olhos do mundo anos atrás [em 2009] e hoje se vê vitoriosa, acima de qualquer suspeita. Olha de cima os estarrecidos doutores economistas que a condenaram e desprezaram, mas que ainda viajam para cá e para lá carregando seus protocolos e ensinamentos ortodoxos [ultrapassados, arcaicos, contraditórios, ineficientes] de austeridade econômica para outros países, nunca para si mesmos e para seus ricaços patrões.

NOTA DO COSIFE:

Lula foi esperto. Tudo que os representantes do grande capital queriam ou recomendavam, fazia o contrário.

Segundo Delfim Netto: Lula cometeu uma heresia que deu certo. Isto é, Lula destruiu os dogmas econômicos rezados pelos ortodoxos ou monetaristas.

E Delfim disse ainda num dos programas Canal Livre da TV Bandeirantes, em 2009: Precisamos repensar e reescrever as Teorias Econômicas. O mesmo disseram estudantes espanhóis, revoltados com o constante insucesso dos dogmas econômicos.

Veja o texto A Bancarrota Espanhola Pode Ter Origem Semelhante a da Islândia em que se desvenda a verdadeira origem do capital Português e Espanhol investido no Brasil.

CRÔNICA SOBRE PRÁTICAS BEM SUCEDIDAS VERSUS TEORIAS CADUCAS

Minha avó ensinava na cozinha a quem quisesse fazer boas comidas, particularmente bolos saborosos, fofos e de aparência inigualável, que nós crianças tanto queríamos, controlando com maestria os ingredientes. Desde o manuseio da massa, ao fermento adequado, à quantidade de ovos, à boa manteiga, ao cheiro ideal.

Vovó [era autodidata em economia doméstica. Era idosa, mas não era caduca. Por isso] fazia o que hoje os economistas ortodoxos e austeros [caducos] desconhecem por completo. Usava ela o conhecimento adquirido mexendo as panelas, sabia a dosagem certa, o tempo necessário e o melhor ponto. Não precisava de cartilhas ou receitas antigas, ultrapassadas, arcaicas, fora da realidade atual.

Mas fazia mais. Em vez de apenas bater panelas durante os discursos de Dilma Russeff, ela as usava com maestria e profundo conhecimento do que estava fazendo. Nos dias hoje, talvez Vovó dissesse o que foi dito por uma entrevistada pelo Heródoto Barbeiro na Record News: "Antes de bater nas panelas, elas deviam aprender a lavar as panelas".

Vovó já havia incorporado ao seu "IT" a arte de fazer bem o que era para dar bom resultado. Lembro-me hoje do filme mexicano "Como Água para Chocolate" que mostrava o ato de cozinhar bem com o sentimento de amor. Para cada tipo de comida o enredo sugeria amor, conhecimento, paciência e timing.

Tudo o que vovó já fazia de bom e perfeito na sua economia doméstica, os economistas ortodoxos e austeros e a Troika não fazem em defesa das populações. Nem pensam em fazer. Claro que não é de se esperar amor (nunca) de um FMI, Comunidade Europeia (CE) ou Banco Central Europeu (BCE). Nem do Banco Mundial e correlatos. Mas conhecimento, paciência e timing seria o óbvio. E ululante segundo o velho Nélson Rodrigues!

Em tempo: a Troika [FMI, BCE, CE] equivale ao triunvirato implantado como golpe parlamentarista contra o Governo João Goulart na década de 1960. De fato o triplo governo foi um desastre tão grande que o Povo, em plebiscito, votou pelo retorno de João Goulart como efetivo Presidente da Republica. Não satisfeitos com a democracia, os oposicionistas aplicaram o Golpe Militar. É o que os opositores ao governo brasileiro em 2015 estavam tentando reviver. Tentaram fazer o mesmo na Venezuela e ainda queriam levar um avião da força aérea brasileira.

Em lugar de amor, no entanto, cabe outra palavra poderosa mas nunca usada, solidariedade. Não se está falando do novo partido político aliado aos oposicionistas ao governo brasileiro. Deve ser adicionado às cartilhas dessas instituições multilaterais pelo menos um pouco do que resta de humanidade entre seus diretores presidentes e conselhos diretivos. Afinal elas "pretendem" (em tese), mas de fato deveriam ajudar os países e não afundar suas economias em benefício dos banqueiros e de seus bancos falidos pela insana jogatina no Cassino Global.

PARA QUE NÃO EXISTAM CRISES, OS BANCOS E AS GRANDES EMPRESAS DEVEM SER ESTATAIS

O que seriam eles [os banqueiros] não fôssemos todos nós que depositamos nas instituições bancárias nosso dinheiro?

Em troca desse sistema, no entanto, eles nos devolvem juros altos e condições draconianas de pagamento. E isto quando conseguimos empréstimos.

Pior, jogam [apostam no cassino global] com nosso dinheiro no "mercado de capitais", nos mais variados e arriscados expedientes e papéis, como os subprimes no caso dos Estados Unidos, redundando na crise de 2008. E os governos até hoje acabam por socorre-los, a maioria esmagadora, com a desculpa de salvar as economias e os empregos. E quem paga a conta? Nós os contribuintes.

A LIÇÃO DEMOCRÁTICA DA ISLÂNDIA

Mas há pelo menos uma exceção, uma singular e preciosa exceção: a Islândia. País que é uma ilha, uma ilha que é um País, de tamanho próximo ao estado de Pernambuco [ou de Santa Catarina] e com população de pouco mais de 300 mil habitantes, enfrentou sua crise econômica de maneira soberana, altiva, juntos governo e habitantes, dispensando solenemente os palpites e interferências do sistema bancário internacional incluindo os caciques FMI, BCE e CE.

Exatamente para evitar comentários do tipo, ah!, mas a Islândia é pequena e pôde se dar ao luxo de fazer isto, é que cabe a observação: entre as espécies a dor de barriga é a mesma num elefante ou num gato, independentemente do tamanho do coitado. Assim como a austeridade ou a burrice nos ortodoxos.

A Islândia perdeu cerca de 8% de sua "riqueza" [de seu PIB, que verdadeiramente não significa riqueza; a verdadeira riqueza dos países está nas reservas minerais e na produção rural] e um volume de emprego de 12%, magnitudes inéditas para o País, dois anos após a crise bancária de 2008. Rejeitou as medidas de austeridade aconselhadas na época pela Troika [FMI, BCE, CE], em especial a CE, além de não socorrer seus bancos envolvidos no jogo financeiro, deixando-os ir à falência. Governo e população decidiram não tirar do seu bolso para colocar no bolso dos banqueiros.

De 2011 em diante a Islândia revigorou sua economia principalmente a partir da indústria de alumínio [Alcoa], das exportações de pesca e do turismo. Hoje a ilha está muito bem obrigado, com desemprego entre 3% e 4% e um crescimento do PIB da ordem de 3,3%.

Veja o texto sobre A Lição Democrática da Islândia, que versa sobre a falência dos bancos decretada pelo Povo islandês.

NA ISLÂNDIA, OS EXPLORADORES ATACAM NOVAMENTE

Apresenta-se na Islândia, nos países africanos e no Brasil uma nova previsão de desastre. Segundo os ambientalistas, a Alcoa está destruindo o meio ambiente islandês utilizado pelos turistas, que era preservado pelos empresários do turismo.

No Brasil, os oposicionistas ao Governo Federal querem entregar os minérios da Amazônia Azul para os nossos neocolonizadores. O mesmo esta acontecendo nos demais países do Hemisfério Sul, anteriormente chamado de Terceiro Mundo (o colonizado pelos europeus).

O PERIGO DA EXPLORAÇÃO DE MINÉRIOS POR ESTRANGEIROS

O grande problema da exploração de minérios por estrangeiros é que eles levam a matéria-prima, pagam salários irrisórios, não pagam tributos, mediante o subfaturamento das exportações e ainda levam os lucros obtidos nas vendas efetuadas para o próprio país explorado para serem investidos no exterior, em nome de empresas fantasmas de paraísos fiscais. Em suma, nada deixam para o país em troca do minério extraído e exportado.

Isto aconteceu com manganês da Serra do Navio, no Amapá (Brasil). Depois de levado para os Estados Unidos, ficou no Amapá apenas um buraco de 3 km de profundidade, monte de sucata e nada mais que se possa aproveitar. Até o antigo porto desmoronou por velhice (apodreceu) e por falta de manutenção. Quase nada sobrou.

Como a antiga ferrovia, que levava o manganês até porto para ser exportado, pode ser utilizada para exploração de uma jazida de minério de ferro, segundo o site G1-Amapá, há briga na justiça porque ilegalmente a estrada de ferro foi dada em garantia de empréstimo a banco italiano sediado num paraíso fiscal e a empresa tomadora do empréstimo está insolvente (quase falida).

Algo semelhante aconteceu em Serra Pelada depois da exploração do ouro. Apesar do ouro ter sido extraído garimpeiros brasileiros, foi inicialmente comprado pela Caixa Econômica Federal, mas, depois passou a ser adquirido por PCO - Postos de Compra de Ouro de instituições privadas. Os governantes brasileiros anteriores a 2003 (mediante arbitragens de ouro por dólar, feitas pelo Banco Central) indiretamente entregaram todo o ouro produzido aos lavadores de "dinheiro sujo" (obtido na ilegalidade). Desse modo o ouro foi indiretamente transferido para residentes no exterior.

Os brasileiros, agentes ou representantes desses exploradores estrangeiros, têm mais de US$ 500 bilhões, saídos do Brasil, escondidos em paraísos fiscais. E o Brasil continuou com seu eterno PIBinho, o que também acontecerá com a Islândia e com os demais países mencionados.

Veja em O Futuro da Economia da Islândia e a Polêmica do Alumínio.

É PRECISO O MÁXIMO CUIDADO COM O CAPITAL ESTRANGEIRO COLONIZADOR

Ao contrário dos ensinamentos ortodoxos, a ilha continua mantendo controle de capitais desde 2008 limitando a circulação livre de dinheiro. A trava equivale ainda hoje a metade do valor do PIB. Não há espaço adicional para os jogos e expedientes financeiros de risco, somente para manter a circulação da moeda e financiar as atividades produtivas.

Mas, o governo islandês também precisa estabelecer preços mínimos para exportação do alumínio de modo que os lucros fiquem e sejam investidos na Islândia em bens de produção que possam gerar renda no futuro, quando a bauxita não mais existir. A Islândia não deve cometer o mesmo erro cometido pelo Brasil na exploração do ouro de Serra Pelada e do manganês da Serra do Navio.

CONCLUSÃO

O próprio Presidente da ilha, Olafur Grimson, argumenta que a recuperação econômica de seu País se deveu a ter dispensado as sugestões dos organismos multilaterais, a CE em especial, e ter contado com o apoio da população no exercício vigoroso da democracia.

Tanto o Presidente quanto minha avó souberam, mais que a Troika, administrar com eficiência nas suas especialidades o exercício de seus conhecimentos e habilidades. Cada qual combinou os devidos ingredientes econômicos, sociais e políticos de um lado e culinários de outro para chegarem juntos ambos a resultados auspiciosos.

O primeiro escutou seu povo e dele ouviu seus clamores, a segunda escutou seus comensais e deles ouviu suas preferências e desejos. Uma questão de humildade, despojamento e sabedoria. Saber ouvir e saber operar junto. Por trás de tudo, humanidade, maneiras de lidar com relações humanas.

Se o Presidente ou minha avó estivessem entre os economistas da Troika certamente fariam exatamente o oposto do que é feito hoje na Zona do Euro. Em particular com a Grécia, Portugal, Espanha e Itália. Pelo menos os dois têm históricos de sucesso, coisa que os outros não lograram.

Senão, como é que o receituário de austeridade e ortodoxia ainda não deu resultado até agora em nenhum desses países? Ao contrário, os países sofrem há tempos com desemprego, quedas no PIB, reduções de vendas e produção sem que os ajustes fiscais draconianos pretendidos pela Troika tenham dado os resultados preconizados.

Que o Brasil se espelhe na Islândia e mostre sua capacidade de reagir sem sacrifícios desnecessários e injustos. Basta deixar a cartilha da Troika seguida pela Fazenda e ir no rumo da Islândia. Um acordo entre governo, empresas e população pode levar a economia de volta ao crescimento com justiça social.

Como já dito por outros diversas vezes, não se trata de simples ajuste da caixa do governo, mas de acerto entre governo, empresas e população. A Troika quer salvar os bancos, não os países. Com certeza o Presidente da Islândia ou minha avó, assim como as demais vovós de nossos leitores, fariam muito e bem melhor. Pelo menos com mais solidariedade e menos arrogância.