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A GERAÇÃO PERDIDA

A GERAÇÃO PERDIDA

A SÍNDROME DO PRIMEIRO EMPREGO

São Paulo, 15 de maio de 2003 (Revisado em 16-09-2016)

Referências: Crise do Emprego, Desemprego Estrutural e Conjuntural, a Estatização da Economia e a Criação de Empregos para os Jovens Recém-formados, Teoria de Keynes - maior controle sobre a economia, O Milagre Brasileiro, a Crise de Desemprego Provocada pela Privatização das Empresas Estatais. Os Neoliberais Anarquistas e a Autorregulação do Mercados. O Regime Militar e o Enfraquecimento dos Sindicatos de Trabalhadores.

Por Américo G Parada Fº - Contador - Coordenador do COSIFE

A SÍNDROME DO PRIMEIRO EMPREGO

No sentido figurado, síndrome é o conjunto de características ou de sinais associados a uma condição crítica, suscetíveis de despertar reações de temor e insegurança (Dicionário Aurélio).

Os filhos de casais que neste início do século XXI estão entre os 40 e 60 anos de idade têm chegado à conclusão de que foi inútil todo o dinheiro gasto por seus pais para sua formação cultural e profissional.

Essa é a realidade dos jovens da classe média deste início de século, principalmente daqueles que conseguiram terminar um curso superior. Por mais incrível que pareça, eles não conseguem trabalho e quando conseguem é para ganhar salários ridículos, que seus pais ganhavam mesmo sem terem cursado uma faculdade. Muitos só conseguem trabalhar em estágios com baixa remuneração e sem direitos trabalhistas, com poucas possibilidades de efetivação no emprego. Verdadeiro regime de semi-escravidão.

Nas décadas de 1950 e 1960 os jovens com 14 anos de idade conseguiam trabalho para ganhar o salário mínimo. Aos 16 anos de idade, quando concluído o curso ginasial, o emprego era mais fácil ainda. O interessante é que o salário mínimo daquela época tinha o poder aquisitivo de pelo menos 3 salários-mínimos de hoje e era suficiente para um chefe de família sustentar a esposa e até cinco filhos. As mulheres casadas geralmente não trabalhavam fora de casa.

Aos 21 anos, muitos conseguiam ganhar 10 salários mínimos de hoje (3 daquela época). Isto era comum entre os bancários. Cinco anos após o término do curso superior, isto é, por volta dos 30 anos de idade, no exercício da profissão para qual tinha estudado, o já então não tão jovem podia estar ganhando 10 salários mínimos daquela época e aos dez anos de formado podia estar ganhando 30, cerca de 50 salários mínimos de hoje. A essa altura estávamos na era do regime militar e o salário-mínimo tinha perdido boa parte de seu poder aquisitivo, o que continuou acontecendo até o início do século atual.

Muitos dos jovens saíram da classe “D” e chegaram à classe “B”. Quase não existiam favelas. Oitenta por cento das universidades eram gratuitas. O ginasial era cursado mediante bolsas pagas pelo Estado. O 2º grau (curso clássico ou científico) geralmente era pago pelas empresas de médio e grande porte aos seus funcionários. Era fato corriqueiro um indivíduo trabalhar 10, 20 e até 30 anos numa mesma empresa.

Outro fato interessante é que mais de 80% da “população ativa” estava empregada com carteira de trabalho assinada.

Nos primeiros anos do regime militar quem fosse pego na rua pela polícia sem a carteira assinada era detido por vadiagem. Haja cadeia para os vadios e “vagabundos” de hoje (ano de 2003). Naquela época eram perto de 50 milhões de miseráveis que nunca tiveram um emprego formal, uns 12 milhões de desempregados, cerca 20 milhões de aposentados e mais 30 milhões de jovens (não miseráveis) que nunca conseguiram o primeiro emprego.

Assim sendo, naquele ano de 2003 o Brasil tinha perto de dois terços da população na classe dos vadios e vagabundos. Note que nesses dois terços não estão incluídas as crianças e os adolescentes até 14 anos de idade. Havia trabalho para 1 em cada grupo de 3 indivíduos e em 2003 existia vaga para 1 em cada 6. Diferentemente de outrora, as famílias de agora não podem ter tantas pessoas desempregadas, porque os ganhos individuais são pequenos, principalmente nas classes mais pobres da população.

Antes de 1964, uma carteirinha expedida por um sindicato de trabalhadores valia mais do que a carteira de trabalho ou o RG (carteira de identidade). Após o golpe militar de 1964, quem tinha uma carteira da UNE - União Nacional dos Estudantes era preso como subversivo. O mesmo passou a acontecer com os dirigentes sindicais, o que enfraqueceu o sindicalismo e propiciou a derrocada dos salários e depois dos empregos.

Na realidade o que provocou a queda do nível de emprego no mundo inteiro foi a automação das indústrias e da agricultura. Até o sistema financeiro, que atualmente tem muito mais agências bancárias, emprega menos trabalhadores do que outrora. Veja o texto intitulado A Crise do Desemprego - Desemprego Estrutural e Conjuntural.

A ESTATIZAÇÃO DA ECONOMIA BRASILEIRA A PARTIR DE 1930

No Brasil, em 2009, existiam cerca de cinco milhões de empresas para gerar todos os empregos. Havia a necessidade de geração da média de 40 vagas em cada uma. Mas, a maioria delas não tinha condições de gerar mais do que 5 posições de trabalho. E outra parte só consegue gerar no máximo 10 empregos.

Não tendo a iniciativa privada global a intenção ou a capacidade para gerar tantos empregos em razão da automação, só resta aos governantes do novo milênio, não só no Brasil como no resto do mundo, voltar a apelar para economia estatal, aquela da Teoria de Keynes que advoga a criação de emprego pelo governo, a fim de manter ocupada a força de trabalho e evitar o desemprego.

E foi justamente essa política governamental de estatização da economia que gerou os empregos que o Brasil necessitava desde 1930 até 1964. Em 1930 a produção industrial brasileira era um terço da portenha (Argentina). Isto significa dizer que a produção industrial per capita da Argentina em 1930 era cerca de 10 vezes a nossa. De 1928 até 1940 foram construídos no Brasil 145.000 km de estradas e com elas cresceram todos os setores industriais incumbidos de substituir as importações. Na década de 1960 o Brasil já produzia muito mais do que a Argentina, que sempre teve menos de um terço da população brasileira. A economia brasileira cresceu tanto que o país chegou a ser a oitava potência econômica mundial antes do início do governo Collor, quando começaram as privatizações.

Na década de 1950 a produção de energia elétrica no Brasil era controlada por estrangeiros, o que não permitia o crescimento mais acelerado da industrialização e a utilização de aparelhos elétricos nas residências, as quais usavam a energia elétrica apenas para iluminação e para passa roupa. Eram constantes os racionamentos e por isso foi criada a Eletrobrás. O mesmo aconteceu em outros setores controlados por estrangeiros, originando a criação da Telebrás, da Embratel, das companhias telefônicas estaduais, da Petrobrás, da Portobrás, da Siderbrás, da Embraer e muitas outras.

Foi o sucesso da FNM - Fábrica Nacional de Motores na fabricação de caminhões pesados na década de 1950 que atraiu as montadoras estrangeiras. O sistema de telégrafo era o caos, o que só foi resolvido com a estatização; os telegramas da Western eram entregues apenas nas regiões próximas ao centro das capitais (nem todas); nas regiões mais distantes levavam dias para chegar. O mesmo aconteceu com as ferrovias, embora a grande expansão das rodovias as tenha estagnado. Uma ligação telefônica interurbana, controlada por empresas estrangeiras, demorava horas para ser completada pela telefonista. Mesmo no Rio de Janeiro, capital do Brasil, a partir 15 km de distância do centro da cidade, todos os telefonemas necessitavam de interferência da telefonista, os telefones eram do tipo magneto, à pilha. O problema só foi resolvido com criação da CETEL - Cia. Estadual de Telefones, que depois incorporou a estrangeira e formou a TELERJ.

Foi justamente a estatização que tirou o Brasil do atraso econômico de mais de um século em relação aos países considerados desenvolvidos.

A partir de 2003, as Agências Reguladoras como autarquias independentes das decisões governamentais se mostraram incapazes de bem administrar as privatizações, razão pela qual o governo intervir, trocando seus gestores, para que pudesse colocar a nossa economia na direção recomendável ao bem estar da nação.

Atualmente, depois da derrocada financeira norte-americana, acontecia em 2008, provocada pela irresponsabilidade dos neoliberais defensores da autorregulação dos mercados, somente a estatização poderá fornecer os empregos que nossos jovens precisam para que não passem para uma classe social inferior após a morte de seus pais.