início > textos Ano XX - 19 de setembro de 2019



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A "GLOBALIZAÇÃO" DO CINEMA

SOBRE AS CRISES ECONÔMICAS DURANTE O GOVERNO FHC

FOLHA DE SÃO PAULO - PAULO NOGUEIRA BATISTA JR

SÃO PAULO, 25/04/1999 (Revisada em 04-07-2018)

Referências: Globalização, Propaganda Enganosa, Lavagem Cerebral, Premiação de Apadrinhados, Banalidade do Oscar no Cinema Norte-Americano.

A "GLOBALIZAÇÃO" DO CINEMA

Por Paulo Nogueira Batista Jr - Economista e professor da Fundação Getúlio Vargas

No início do século XX, o filósofo espanhol Ortega y Gasset anunciou que o século 20 marcaria a ascensão irresistível das massas. Trinta ou quarenta anos depois, o nosso Nelson Rodrigues diria a mesma coisa com mais desenvoltura: o traço distintivo do nosso tempo é o triunfo do idiota.

De fato, nunca se havia visto nada de parecido. Idiotice e vulgaridade sempre existiram, é claro. Mas nunca com tamanha e avassaladora presença. Em outras épocas, o idiota, consciente das suas limitações, esgueirava-se, humilde, pelos cantos. Jamais lhe passaria pela cabeça ocupar de forma desinibida o centro do palco.

Hoje, a vulgaridade se espalha, agressiva e triunfante. E mais: está sempre disposta a sufocar e exterminar qualquer demonstração de sensibilidade ou talento real.

Dei toda essa volta para falar do Oscar. No domingo à noite, lá estava eu, junto com meio mundo, assistindo às premiações da Academia.

Ah, meus amigos! Por mais que estivéssemos todos contaminados pelo padrão deteriorado da cultura de massa norte-americana, há de existir em cada um de nós um resto, um restinho que seja, de sensibilidade e inteligência que reaja àquele festival inacreditável de vulgaridades "globais".

Por motivos estritamente nacionais, o que mais insatisfação provocou aqui no Brasil foi a dupla premiação do Roberto Benigni, uma espécie de Renato Aragão da Itália, e o Oscar de melhor atriz para uma iniciante. A armação era evidente em todos os aspectos, até no posicionamento dos candidatos na plateia. O Benigni esteve sempre em posição de destaque e foi várias vezes citado. Já o Waltinho, sentado em algum local remoto, era uma ilustre ausência da tela. Se ganhasse alguma coisa, teria que pegar um ônibus para receber a estatueta.

Mas a marca da mediocridade perpassou o evento como um todo. Um observador inteligente poderia concluir que o cinema "global" do final do século 20 é um instrumento de difusão das banalidades mais atrozes.

Trata-se, evidentemente, de mais uma falsa "globalização": o Oscar é um evento essencialmente americano, aliás em grande parte incompreensível para não-americanos, que se apresenta, entretanto, como tribunal "global" do cinema e - o que é pior - vem sendo aceito como tal por grande parte do planeta.

No campo do cinema, assim como em outras áreas, a palavra "globalização" é um codinome para americanização. Expressa, de forma enganosa, a extraordinária capacidade que têm os EUA de distribuir em escala mundial a sua infindável produção de bobagens.

Até o cinema da Europa tem tido dificuldade de resistir. Recentemente, o cineasta alemão Volker Schlöndorff publicou na revista "Der Spiegel" um artigo que traz dados impressionantes (o artigo foi republicado em "O Estado de S. Paulo" do último domingo). Três quartos dos filmes a que os europeus assistem no cinema ou na TV vêm dos EUA. Enquanto isso, os filmes estrangeiros respondem por cerca de 2% do mercado dos EUA. Hoje em dia, de acordo com o cineasta, um europeu quase nunca assiste a filmes de países vizinhos.

O contraste com a situação de duas ou três décadas atrás é chocante. Segundo Schlöndorff, entre 1960 e 1980 um terço dos mercados europeus de cinema era de produções americanas, um terço, de filmes nacionais, e um terço, de filmes dos países vizinhos. Em questão de 20 anos, a invasão do cinema americano transformou a paisagem. E isso na Europa, cujo cinema tem grande tradição e é (ou era) em geral bem melhor do que o dos EUA.

Nesse ambiente, o sujeito que tem talento e criatividade precisa disfarçá-los cuidadosamente. Se quiser sobreviver, tem que entremeá-los com homenagens hediondas ao gosto médio.

Evidentemente, os cineastas americanos também sofrem. Vejam o caso do Brian de Palma, diretor que tem, no meu entender, uma secreta tendência à genialidade. Se não tivesse, não teria feito, por exemplo, a obra-prima romântica que é "Dublê de Corpo".

Mas o quadro é realmente desalentador: um sujeito de grande talento como o de Palma, além de dedicar grande parte da sua energia a uma série de filmes banais, puramente comerciais, ainda precisa danificar até mesmo as suas obras-primas com concessões às preferências selvagens do público e, por exemplo, fazer assassinar a protagonista do romance com uma britadeira e grande profusão de sangue!

Uma palavra final sobre o Brasil: o cinema nacional, massacrado que foi nos anos recentes, sobretudo no período Collor, está ressurgindo aos poucos. "Central do Brasil" é uma demonstração clara disso. Não precisávamos da indicação ao Oscar para sabê-lo. Ao contrário, do jeito que está, o Oscar compromete.

Livro que se preza não costuma entrar em lista de best seller. Filme que se preza não costuma ganhar Oscar.


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