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DESEMPREGO E INFLAÇÃO

SOBRE AS CRISES ECONÔMICAS DURANTE O GOVERNO FHC

FOLHA DE SÃO PAULO - PAULO NOGUEIRA BATISTA JR

São Paulo, 26/03/1998 (Revisada em 23-10-2018)

Referências: Inflação, Desemprego Estrutural e Conjuntural, Desastre Cambial Brasileiro, Erros Cometidos pelos Gestores da Nossa Política Econômica e Monetária na década de 1990.

DESEMPREGO E INFLAÇÃO

Por Paulo Nogueira Batista Jr - Economista e professor da Fundação Getúlio Vargas

Até recentemente [março de 1998], a tendência do governo e dos seus porta-vozes oficiais ou extraoficiais era negar a gravidade do problema do desemprego. As explicações e evasivas eram as mais variadas. Dizia-se, por exemplo, que o desemprego era um problema apenas em certas regiões, como São Paulo, ou em alguns setores da atividade, como a indústria.

Os dados divulgados nos últimos meses [anteriores a março de 1998] não davam sustentação a esse ponto de vista. A desocupação vinha aumentando não só em São Paulo, mas em todas as regiões metropolitanas. E não só na indústria, mas na construção, no comércio e nos demais serviços.

Tornava-se cada vez mais claro que o problema era macroeconômico, criado em grande medida pela política do governo federal. Mais precisamente pelo Governo FHC, pois os fatos relatados aconteceram durante aquele desgoverno.

Nessas circunstâncias, a tentação era a de atribuir o aumento do desemprego ao combate à inflação. Nada mais conveniente para o governo. Como a popularidade da estabilidade monetária era grande (até certos economistas do PT já se deram conta disso), sempre que necessário o governo se valia dela como uma espécie de biombo. Segundo esse argumento, o desemprego crescente seria o preço "inevitável" a pagar pela estabilidade monetária que beneficiava o conjunto da população, em especial os mais pobres.

Entretanto, os mais pobres compunham a maior massa de desempregados, razão pela qual as favelas cresceram assustadoramente até 2002.

Bem. Como dizia o historiador inglês A. J. P. Taylor, inevitabilidade é uma palavra mágica usada para iludir os incautos.

A tese de que o desemprego seria o subproduto fatal do combate à inflação, só tem validade em circunstâncias específicas, isto é, quando o processo inflacionário, ou o risco de aumento da inflação, decorre de um aquecimento excessivo da economia, de uma conjuntura em que a demanda agregada pressiona a utilização dos recursos produtivos disponíveis, favorecendo a alta dos preços e salários.

Alguém tem dúvida de que esse está longe de ser o [acontecido em 1998 na] economia brasileira?

Desde o começo dos anos 80, época em que teve início a crise da dívida externa, o Brasil vem crescendo quase sempre muito menos do que o seu potencial de longo prazo. Na década [de 1990], só em 1994 a economia registrou uma taxa de crescimento significativa, de 6%. Depois disso, o crescimento foi sempre bastante medíocre. Entre 1995 e 1997, o PIB aumentou na faixa de 3% a 4% ao ano, bem abaixo do que seria necessário para evitar o aumento das taxas de desemprego e subemprego.

NOTA DO COSIFE:

Torna-se importante observar que em 2014 alguns economistas disseram que a razão do nosso PIBinho de 2013 estava no elevado pagamento de juros que comia 3% do nosso PIB - Produto Interno Bruto.

Então, considerando-se que durante o Governo FHC as taxas de juros chegaram a 46% ao ano enquanto em 2013 foram menores de 10% ao ano, temos que durante aquele governo os juros pagos aos capitalistas absorveram no mínimo 12% do PIB e, mesmo assim, ainda houve crescimento de 3% a 4%, o que não pode ser verdade, visto que naquela época significativa parcela dos nossos setores produtivos estava desativada, razão pela qual o índice de desemprego chegou a 20%.

Esta observação tornou-se importante para que o leitor possa perceber até que ponto os incautos (citados acima) podem ser enganados ou iludidos pelas estatísticas manipuladas.

Desde fins de 1997, as perspectivas pioraram. Como resultado da instabilidade no leste da Ásia e dos seus efeitos sobre economias vulneráveis como a brasileira, a taxa de crescimento do PIB brasileiro será ainda mais reduzida em 1998, provavelmente negativa em termos "per capita".

Em outras palavras, [na década de 1990] a economia brasileira acumulou e continuava acumulando considerável capacidade produtiva ociosa. Havia um grande número de trabalhadores desempregados ou subempregados e as empresas tinham capacidade instalada que não estava sendo inteiramente aproveitada. Durante alguns anos, a economia poderia crescer até mais do que a sua taxa média de longo prazo sem pressionar a taxa de inflação.

A restrição macroeconômica ao crescimento é de outra natureza. A experiência recente [na década de 1990] tem mostrado que toda vez que a economia cresce, ou ameaça crescer, num ritmo compatível com uma geração adequada de empregos, isto é, a taxas anuais da ordem de 6% a 7%, logo começam a surgir desequilíbrios alarmantes na balança comercial e no balanço de pagamentos em conta corrente. Os mercados financeiros externos e internos acendem sinais de advertência, o governo se assusta e o Banco Central refreia o crescimento com medidas de aperto monetário ou creditício. Mesmo quando a economia cresce pouco, o desequilíbrio externo permanece elevado.

Além disso, quando se produz alguma turbulência mais grave, como aconteceu com a crise do México em 1994-95 ou, mais recentemente, com a crise no leste da Ásia [antes de 1998], o Brasil aparece como economia frágil, particularmente sujeita às repercussões internacionais de colapsos cambiais e financeiros em outras economias periféricas.

Essas dificuldades não são, evidentemente, produto de alguma lei da natureza ou fatalidade macroeconômica. Trata-se do resultado das políticas seguidas pelo Brasil nos anos recentes. Na década de 1990, o Brasil abriu de forma pouco prudente e pouco criteriosa a sua economia às importações. Descuidou, também, da promoção das exportações. E, desde 1994, permitiu uma sobrevalorização cambial significativa. Em consequência, a economia adquiriu uma propensão ao desequilíbrio externo e se tornou altamente vulnerável às flutuações financeiras internacionais.

De uns tempos para cá, o governo está tentando corrigir essa propensão ao desequilíbrio externo. Já não segue a linha ultraliberal do início do Plano Real. Desde 1997, começou a desvalorizar gradualmente a taxa de câmbio real em relação ao dólar. Introduziu restrições pontuais à importação e vem procurando estimular as exportações por meio de mecanismos tributários e creditícios.

Ou seja, no segundo governo de FHC, seus assessores tentaram corrigir todos os infantis erros praticados durante o seu primeiro governo.

Mas as medidas de ajuste ainda são tímidas. Para recuperar as condições de crescimento e de geração de empregos, é necessário modificar em profundidade as políticas econômicas internacionais do Brasil. Enquanto a tendência ao desequilíbrio externo não for removida, o dinamismo da economia ficará contido e crescerá o contingente de pessoas sem emprego ou empregadas em condições precárias. E como o desemprego costuma atingir mais intensamente os setores mais pobres, o resultado será o aumento dos já elevados níveis de miséria e de concentração da renda nacional.

NOTA DO COSIFE:

Todo esse desastre econômico acima narrado foi combatido a partir de 2003 e passou a surtir efeito depois de 2005 quando foi extinto o MTF - Mercado de Câmbio de Taxas Flutuantes.

Esse mercado paralelo de câmbio, criado pelos neoliberais brasileiros, deixava livre a expatriação de nossas reservas monetárias, conforme foi dito pelo Secretário do Tesouro Norte-Americano durante o Governo FHC. O fato está comentado no texto sobre Balanço de Pagamentos.


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