início > textos Ano XX - 19 de agosto de 2019



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OS BANQUEIROS E O ATAQUE ESPECULATIVO

OS BANQUEIROS E O ATAQUE ESPECULATIVO.

São Paulo,  primeiro semestre de 1999.

Durante o CRASH mundial, de 1997 ao início de 1998, que desvalorizou moedas e derrubou bolsas de valores, quebraram os endividados em moedas estrangeiras e enriqueceram os que tinham aplicado seus recursos em moedas fortes.

O que ocorreu?

 "ATAQUE ESPECULATIVO" ou "DEFESA ESPECULATIVA"?

Para definirmos qual é a denominação certa para os fatos ocorridos durante o CRASH mundial, devemos fazer as seguintes reflexões:

1 ) - A quem interessa a brusca queda do poder de compra da moeda local (em qualquer país)?

Primeiramente interessa aos exportadores nacionais, que passam a competir em preços no mercado externo. Com a manutenção de seus custos internos em moeda nacional  e com o aumento de suas receitas em razão da desvalorização da moeda nacional teriam mais lucros.

Interessa, também, ao investidor estrangeiro que pretenda investir no país (e até o momento da desvalorização nada investiu no país alvo da desvalorização monetária).

Por que?

Simplesmente porque, depois da desvalorização, o investidor estrangeiro receberia mais dinheiro em moeda local, assim como o exportador nacional. Estes dificilmente fariam um "ataque" ou uma "defesa" especulativa antes de executar suas operações de exportação ou de investimento externo.

2) - Interessa às multinacionais, que já investiram a médio e longo prazo num país, a desvalorização da moeda local?

Não.

Por que?

Simplesmente porque menos moedas estrangeiras poderiam comprar após a desvalorização da moeda local por ocasião das remessas de lucros e dividendos e por ocasião de outros casos de retornos de investimentos. Também poderiam comprar menos moedas estrangeiras por ocasião do pagamento de empréstimos de longo prazo ou, ainda, por ocasião da importação de produtos vindos da matriz.

Essa perda de capital em moedas fortes só não ocorreria se os recursos para remessa estivessem protegidos contra a inflação ou desvalorização ("defesa especulativa"). Essa defesa é efetuada mediante operações de "hedge" (proteção), baseadas em "swap" (troca de posições) ou outros "derivativos" no mercado futuro ou de opções das Bolsas Mercantis e de Futuros, ou ainda no "mercado de balcão" (fora das bolsas). Obviamente que, com essas medidas de defesa especulativa, não haveria perda de capital na compra da moeda a ser remetida.

Mas, ao contrário, a expectativa de maxidesvalorização apressa as multinacionais e os especuladores a remeter a maior quantidade de dinheiro para o exterior, o mais rapidamente possível, forçando que a maxidesvalorização seja efetuada mais rapidamente ainda. O dinheiro remetido ao exterior antes da maxidesvalorização, depois volta e assim gera mais moeda nacional em circulação. Ou seja, a moeda estrangeira é remetida a R$ 1,25 por dólar e depois volta, por exemplo, a R$2,50 por dólar, gerando o dobro de moeda nacional em circulação, o que, segundo os economistas, gera inflação.

3) - Interessa aos especuladores estrangeiros, que investiram no Brasil por curto prazo, a desvalorização da moeda?

Não.

Por que?

Porque também receberiam menos dólares por ocasião do retorno de seus investimentos.

Mas, ao contrário, como já dissemos, interessa àqueles que pretendem investir no país objeto da maxidesvalorização e que nele ainda não investiram.

4) -A quem realmente interessa a desvalorização da moeda local?

Interessa aos captadores de recursos no país alvo do tal ATAQUE ESPECULATIVO ou da desvalorização da moeda.

Por que?

Porque, se os banqueiros captaram em moeda local, sem nenhuma cláusula de reajuste com base em uma eventual inflação ou numa eventual desvalorização cambial e tenham investido todos os recursos captados em moedas estrangeiras fortes, é para eles altamente importante que haja a maxidesvalorização.

Por que?

Porque necessitariam vender menos moeda estrangeira para resgatar os recursos captados em moeda local, agora desvalorizada.

Dessa forma, sobrariam recursos no exterior (em moeda estrangeira), que seriam de propriedade do banco captador. Ou seja, o saldo restante no exterior não mais estaria indiretamente vinculado às contas a pagar ou aos investimentos a resgatar. Portanto, esse seria o lucro do banqueiro captador, devidamente depositado num paraíso fiscal e totalmente isento de qualquer tributação sobre ele.

A outra opção do banco seria investir o dinheiro captado diretamente no país em que está captando. Porém,  esses investimentos seriam efetuados EM TÍTULOS COM CORREÇÃO CAMBIAL. Também poderia ser feito através de um paraíso fiscal como se estrangeiro fosse, forma que lhe proporcionaria também um ganho tributário, porque pagaria menos ou nenhum imposto.

5) - Então, quais são os grandes interessados na desvalorização da moeda local?

São os banqueiros nacionais ou estrangeiros que tenham captado em moeda local e a tenham trocado por moedas estrangeiras fortes ou as tenham aplicado em títulos públicos com correção cambial.

Isto é, os grandes interessados na desvalorização são aqueles que investiram em moedas (ou títulos) que não sofrem grandes flutuações de preço, tais como, o dólar norte-americano, o marco alemão, o iene japonês, o franco francês e suíço, a libra inglesa e os títulos brasileiros com correção cambial.

A desvalorização também interessa aos exportadores, que receberão mais moeda local por dólar cobrado pelo produto exportado.

Contrariamente, a desvalorização não interessa aos importadores de bens comprados a prazo e em moedas estrangeiras fortes, porque suas dívidas em moeda local aumentarão. A desvalorização também não interessa às classes mais endinheiradas, porque teriam de desembolsar mais moeda local para comprar os bens supérfluos que costumam importar, sem os quais não conseguem mostrar sua supremacia aos mais pobres.

6) -Durante o "CRASH", o que ocorreu na prática?

Na prática, não só no Brasil como também em 1997/1998 nos "tigres asiáticos", ocorreu o descrito nas duas últimas questões mencionadas.

Os banqueiros instalados neste e naqueles países, com altas captações em moeda local, especularam, comprando moedas estrangeiras e fazendo investimentos de curto prazo em títulos no exterior. Ao apurarem que estavam com elevados prejuízos em moeda local, contabilizados em razão da má administração, das mordomias em suntuosos prédios e dos gastos em clubes de golfe, hotéis cinco estrelas, cassinos, iates, carrões, jatinhos, helicópteros, publicidade, convenções, festanças, orgias e tóxicos, resolveram transferir esses seus prejuízos para terceiros, os investidores, o chamado povão.

Ou melhor, segundo Joelmir Beting, resolveram socializar os prejuízos apurados, repartindo-os com seus infelizes clientes locais. Para lucrar, os banqueiros deveriam forçar um ganho cambial em detrimento de quem realmente é o dono do dinheiro e vai perder grande parte do que aplicou com a desvalorização, que obviamente gerará inflação.

Para provocar a maxidesvalorização, cabe então ao banqueiro captador espalhar a notícia de que a moeda está super valorizada e que há a necessidade de uma grande desvalorização.

Esse banqueiro passa a forçar a desvalorização da moeda local, oferecendo-se para comprar dólares por preços mais altos. Se já não tem mais dinheiro para continuar comprando, imediatamente os vende, em igual quantidade. Esta operação é conhecida como "day-trade" - mera especulação. A grande quantidade de operações "day-trade" (compra e venda no mesmo dia) força a desvalorização pela formação artificial de um novo "preço de mercado", sempre maior da moeda estrangeira. O artificialismo das operações "day-trade" é que cria o chamado "ataque especulativo".

Essa necessidade de desvalorização da moeda local é imediatamente agravada com a fuga dos investidores externos, que procuram sair do país o mais rapidamente possível para não perder com a iminente queda das reservas em moedas estrangeiras, já que isso pode gerar uma declaração de moratória, que é a postergação do pagamento de juros e do resgate ou liquidação de títulos cambiais e de empréstimos tomados no exterior).

O Banco Central, neste caso, tenta evitar a desvalorização, vendendo ("queimando") ou entregando suas reservas em ouro e moedas estrangeiras aos investidores internacionais em fuga antecipada. O captador local, por sua vez, só vai realmente vender as suas reservas depositadas no exterior depois da desvalorização da moeda local, ocasião em que as reservas do país estarão prestes a se esgotarem.

Com as maciças aplicações dos banqueiros, as reservas monetárias vão à exaustão, momento em que o Banco Central efetua a desvalorização como forma de trazer os dólares de volta, o que ocorreu tardiamente em 1999.

AS NOTÍCIAS

Durante o tal "CRASH" mundial dos anos 1997/1998, os jornais cansaram de mostrar fotos (e as televisões, "imagens") de grupos de investidores querendo resgatar o fruto de toda uma vida de trabalho e poupança. Dinheiro esse que tinha sido roubado ou, melhor dizendo, especulado. Na verdade, do dinheiro foi protegido pelos banqueiros em seu próprio proveito e não no proveito dos investidores, os verdadeiros donos do dinheiro. Pelo contrário, estes investidores é que foram os grandes perdedores.

No caso brasileiro, os banqueiros, os especuladores e os ditos investidores estrangeiros, que também são brasileiros, levaram os dólares na média a R$ 1,25 e trouxeram de volta a R$ 2,50. Ou seja, além do Banco Central do Brasil ter perdido todas as suas reservas oriundas de empréstimos externos, ainda teve que colocar em circulação o dobro da moeda nacional, quando do retorno dos dólares. E para "enxugar"o meio circulante teve que emitir títulos cambais.

CONCLUSÃO

Até aqui, já podemos concluir que o "CRASH" foi um "ATAQUE ESPECULATIVO" e que não foi de investidores estrangeiros e sim de banqueiros nacionais. É justamente por isso que já nos cansamos de ouvir dizer que "OS BANQUEIROS SEMPRE GANHARAM COM A INFLAÇÃO" ou com a desvalorização da moeda.

Nos citados casos em que houve as operações de proteção (hedge), de fato se trata de "DEFESA ESPECULATIVA".

Essa proteção ou "Defesa Especulativa" é contra a diminuição de preços dos Ativos (bens e direitos = valores a receber) e de aumento de preços dos Passivos (obrigações = contas a pagar).

Para que seja efetuada essa proteção ou "Defesa Especulativa", são utilizados os mercados futuros e de opções de moedas e de ouro e mercados futuros de mercadorias e de índices das Bolsas Mercantis, os mercados a termo e de opções das Bolsas de Valores e os "swaps" e outros derivativos no mercado de balcão (fora das bolsas).

"ATAQUE ESPECULATIVO" AO INVESTIDOR BRASILEIRO

Antes da criação do Mercado de Taxas Flutuantes ("câmbio turismo"), o investidor brasileiro (digo, "o povão") em diversas ocasiões foi vítima dos "ATAQUES ESPECULATIVOS" que lhes causaram consideráveis perdas.

Entre esses ataques podemos citar os desvios de recursos de fundações e de institutos de previdência (US$ 6 bilhões - teve CPI, mas não teve punição), os desvios dos Fundos de Investimentos e em especial dos recursos de incentivos fiscais dos Fundos DL 157 (onde se concluiu que as perdas foram "a mercado", ou seja, mediante negociações nos pregões das bolsas, segundo eles: sem "especulação", sem "insider" e sem normas do CMN - Conselho Monetário Nacional que forçassem as perdas, como em 1986 no "Plano Cruzado").

Assistimos também outros tipos de ataque menos especulativos, tais como os desvios dos orçamentos da União (caso dos "anões"), dos Estados (caso dos "precatórios") e dos Municípios (caso das ATM de São Paulo no governo do Jânio Quadros).

Sofremos o ataque do "Plano Collor", que reteve o dinheiro do povo e pagou correção monetária bem inferior a inflação real do período, fato reconhecido na Lei 8200/90, que permitiu a correção especial dos balanços das pessoas jurídicas como forma de corrigir a manipulação governamental dos índices inflacionários, mas, não corrigiu (não repôs) as perdas do "povão" (caderneta de poupança, FGTS, investimentos nas bolsas de valores).

O "ATAQUE ESPECULATIVO" E OS DEPÓSITOS DE MOEDA NACIONAL NO EXTERIOR

Como o tal "ATAQUE ESPECULATIVO" ocorreu no Brasil?


Ele ocorreu entre a criação do "Mercado de Taxas Flutuantes" ("Dólar Turismo") pelo Banco Central do Brasil em 1988/89 e o advento do "Plano Real", gerando a alta inflação verificada e, conseqüentemente, as constantes desvalorizações da nossa moeda.

Logo após a criação do "MERCADO DE TAXAS FLUTUANTES" ou, mais precisamente, a partir do "Plano Collor" foi permitido que "brasileiros" (pessoas físicas ou jurídicas) fizessem depósitos de moeda nacional no exterior.

A medida, segundo os economistas de plantão, formados no exterior, visava o fortalecimento da moeda nacional, tornando-a conversível no exterior.

Pura ilusão.

Logo que se vislumbrou o retorno da inflação, diversas empresas brasileiras e principalmente as estrangeiras, bancárias ou não, passaram a fazer elevados depósitos em moeda nacional no exterior.

Pergunta: Será que algum banqueiro internacional seria louco de aceitar nossa moeda inflacionária em depósito? Claro que não.

Imediatamente ao recebimento do depósito, a pedido do depositante, os valores em moeda nacional eram transformados em moeda estrangeira pelo banco depositário. Mas, aqui, na contabilidade do depositante, continuavam constando como "DEPÓSITOS EM MOEDA NACIONAL", embora o dinheiro estivesse realmente investido em moeda estrangeira em alguma subsidiária do banco depositário, num paraíso fiscal.

Com a alta inflação e o retorno da correção monetária das demonstrações financeiras (Lei 8200/90, já citada), esses depósitos passaram a ser utilizados como forma de "PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO", mediante a redução do imposto de renda sobre lucros e como meio de remeter disfarçadamente lucros para o exterior sem tributação (naquela época as remessas de lucros eram tributadas e só deixaram de ser tributadas na era FHC com a Lei 9249/95, que começou a vigorar em 01/01/96).

EXEMPLO:

Suponhamos que um banco tenha CAPTADO MOEDA NACIONAL equivalente a US$ 100 milhões, pagando taxas prefixadas. Devemos salientar que naquele período eram proibidas as taxas "pós-fixadas" (com correção monetária ou cambial).

Suponhamos, ainda, que esse mesmo banco tenha transferido os recursos captados para sua subsidiária bancária no exterior (estabelecida num paraíso fiscal).

Imediatamente ao recebimento da nossa moeda e através dessa mesma matriz (a remetente), a subsidiária do paraíso fiscal converte o correspondente valor de moeda nacional em dólares no "MERCADO DE TAXAS FLUTUANTES" ("Câmbio Turismo") brasileiro.

As divisas adquiridas podiam ser obtidas também em outras instituições financeiras ou fornecidas pelo próprio Banco Central do Brasil mediante as "ARBITRAGENS" de ouro por dólar. Ou seja, naquela época era privativa do BACEN a compra de ouro com pagamento em dólares ("Câmbio Turismo") e esses dólares eram vendidos à instituição do paraíso fiscal depositária da nossa moeda.

Depois de um ano, hipoteticamente com uma inflação e uma desvalorização cambial próxima dos 2000%, o banco necessitava de apenas US$ 5 milhões (5% do total) para adquirir a mesma quantidade de moeda nacional remetida ao exterior um ano antes.

Com isso o banco no Brasil (ou qualquer outra empresa depositante) gerava uma perda inflacionária equivalente a US$ 95 milhões, que seria contabilizada para reduzir os seus lucros tributáveis aqui no Brasil. Por sua vez, o depositante estabelecido no Brasil, além de pagar menos imposto de renda, ainda fazia uma remessa disfarçada de lucros para o exterior, sem qualquer tributação. Isto é, gerava "CAIXA 2" no exterior, no valor de US$ 95 milhões. Tudo graças ao Mercado de Taxas Flutuantes, às contas CC5 de não residentes e aos depósitos em moeda nacional no exterior devidamente regulamentados pelos gestores da nossa política monetária e cambial.

QUEM PERDEU?

Perdeu o investidor que adquiriu títulos do banco a taxas prefixadas, as quais, no decorrer do tempo, ficaram bem inferiores à inflação real ("ATAQUE ESPECULATIVO").

Perdeu, também, o Fisco, que deixou de receber o imposto de renda sobre os lucros diminuídos pela perda inflacionária gerada e sobre o dinheiro disfarçadamente remetido ao exterior. Deixou também de receber a Contribuição Social.

E chamavam isso de "PLANEJAMENTO TRIBUTÁRIO".

Se algum banco estatal (federal ou estadual) utilizou-se do artifício aqui demonstrado (e parece que vários se utilizaram), é necessário averiguar quem foi ou quais foram os beneficiários do dinheiro que restou no exterior, porque, evidentemente, quando a moeda nacional foi trocada pelos dólares, ela não ficou em nome do banco estatal.